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segunda-feira, 30 de agosto de 2010


Pêlos e tinta


Traiçoeira, pensou jamais amor.
Contudo, no dia em que olhou aquelas telas
pintadas com tinta de romance,
a Raposa felpuda e gananciosa
ficou ainda mais brio, porém amante.
Viu a assinatura, gravou-a na língua molhada,
e foi capaz de sentir o Pintor por inteiro.
Amou, amaram-se.
A utopia das cores daquele autor
é lucidez nos pêlos da raposinha.


Caxias,
Junior Magrafil (30-08-2010).
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O amor segundo a raposa


A raposa esperta e graciosa
aproximou-se de uma videira
de convidativos cachos escuros.
A raposa tentou alcançá-los,
mas o insucesso da operação
a desestimulou e entristeceu.
Diferente de outros ditos,
a minha raposa, triste, não se negou;
tentou, tentou, até cair um cacho.
Diferente dos demais, observou que neste
só havia uma uva madura e boa.
Mas o trabalho foi recompensador:
única uva, único amor.


Caxias,
Junior Magrafil (29-08-2010).
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sexta-feira, 27 de agosto de 2010


Da saudade


Me conforta a noite em que
as memórias se casam novamente.
Me conforta a dor estéril
de virgens sorrisos, e castos libidos.
Não. Sorrisos maculados de passado.
Sim. Macular-se-ão: nova alvorada?
Sim?
A mácula é limpa de amor,
é suja de tesão;
é devassa de quase sem-dor;
é mais lembrança, mais amor;
mais saudade.
Sussurros sem maldade
que meio pensam curiosamente
em corolários
– não há senão saudade.


Caxias,
Junior Magrafil
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010


O amor


O amor é um guarda-chuvas
em dias de chuva intensa;
é um pôr-do-sol quase nascendo;
música boba em fone repartido.

O amor são mãos dadas,
escondidas do peso de olhares;
são olhos que se batem,
envergonhados; ou não.

O amor é repetição de histórias
quando se pensa que é novidade;
é sussurro de segredos e detalhes
que não importariam – importam.

O amor é uma conversa estranha
que tem graça e bom senso no final;
é um tempo gasto que se ganha bônus
e que se gasta de novo e ganha mais.

O amor é indecisão certa do que faz;
é esquecimento de opiniões terceiras
de quem não entende, porque não mesmo
se entende o bem maior da relação.

O amor é quase um louco suicida,
se entrega, se engana – “opia-se”;
faz as bocas falarem uma só língua,
faz corações trocarem; e o resto.


Caxias,
Junior Magrafil (23-08-2010).
 

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